Isolamento acústico

Sons aéreos, ruídos de percussão e barulho de instalações preocupam as construtoras sendo crescente a onda de reclamações

O som dos passos de uma pessoa com sapatos de saltos, da criança brincando ou das unhas do cachorro que corre pela casa passam despercebidos para os moradores, mas podem causar grande incômodo para os vizinhos do andar de baixo.

As soluções para evitar a transmissão dos ruídos de impacto entre os andares são variadas, embora seu uso ainda esteja, muitas vezes, restrito às construções de alto padrão.

A preocupação com o tema também deve receber novo impulso este ano com a entrada em vigor de novas normas técnicas sobre acústica.
Um bom projeto é a melhor solução para evitar a transmissão dos ruídos de impacto – com ondas que se propagam através dos corpos sólidos – muito difíceis de serem eliminados em prédios já construídos. As ruidosas áreas sociais e de serviço não devem ser construídas sobre as áreas de repouso dos vizinhos do andar abaixo, explica a professora Dinara Paixão, coordenadora do curso de Engenharia Acústica da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), que respondeu à entrevista juntamente com os professores Erasmo Felipe Vergara e Stephan Paul.

O cuidado deve se estender à disposição dos cômodos dentro de cada apartamento. “No desenho da planta, os quartos de dormir devem estar longe das fontes geradoras de ruído, tais como áreas de serviço e poços de elevador”, ressalta o projetista de acústica Maurício Grassmann, da Pro-acustic.

Ele se lembra de um caso que atendeu no interior de São Paulo onde, por uma falha na concepção do projeto, os dois poços dos elevadores estavam encostados na parede da suíte do apartamento. A solução foi colocar paredes falsas de drywall, ainda que diminuindo a área do quarto, para bloquear a transmissão dos ruídos. “A construtora arcou com os gastos nesse caso, mas quando os moradores de outros andares tomaram conhecimento da solução e quiseram fazer o mesmo em seus apartamentos, a empresa se negou a financiar as reformas, o que gerou uma série de processos judiciais”, conta Grassmann.

“O projeto tem que ser pensado como um todo”, defende ainda o projetista. “Não adianta nada você não ouvir o vizinho de cima andando à noite, se o prédio está numa avenida badalada, onde bares e casas noturnas funcionam até as três horas da manhã”, diz. O posicionamento do prédio e das janelas, “de costas” para avenidas ou outras fontes de ruídos, é uma das formas de diminuir esses sons aéreos, além do uso de barreiras – um prédio comercial, por exemplo, pode servir de anteparo para os ruídos da rua se a construção residencial estiver atrás dele.

Além da planta arquitetônica adequada, Dinara ressalta a importância de um projeto acústico específico que identifique os materiais a serem utilizados, de acordo com suas características, e que atenda às especificações técnicas normativas. “Também é necessário fazer o acompanhamento do processo de execução desse projeto”, diz a professora.

Espessura da laje
A principal forma de minimizar a transmissão de ruídos entre um pavimento e outro é dimensionar adequadamente a espessura da laje. De modo geral, quanto mais espesso é esse elemento estrutural, melhor o isolamento acústico obtido. Entretanto, explica Mitsuo Yoshimoto, físico do Laboratório de Conforto Ambiental e Sustentabilidade do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), existe um ponto a partir do qual o aumento da espessura da laje não interferirá muito no bloqueio da transmissão dos sons de impacto. A definição desse valor varia a cada caso, dependendo da estrutura, das dimensões superficiais e das características de cada empreendimento.

Para assegurar a eficiência desejada, os materiais de isolamento acústico devem ser utilizados conforme as soluções estabelecidas no projeto. “Mas lajes muito finas, com 8 cm ou 9 cm, provavelmente trarão grande desconforto acústico para os moradores de apartamentos”, adverte Yoshimoto. “Já vi laje de até 6 cm, o que é um absurdo, embora possa ter resistência estrutural suficiente.

” Para atender ao nível mínimo estabelecido pela Norma Técnica NBR 15.575, 10 cm a 12 cm costumam ser suficientes, acredita o pesquisador do IPT. “Além disso, hoje as lajes mais espessas voltaram a ser usadas nas construções populares por razões econômicas: como o aço está muito caro, as construtoras preferem utilizar mais concreto nas estruturas”, diz o arquiteto Régio Paniago Carvalho, da consultoria Arch-Tec.
Pisos flutuantes

“Lajes muito espessas, porém, podem ser inviáveis econômica ou estruturalmente, por isso podemos lançar mão de outros artifícios que promovam o isolamento acústico necessário”, explica Carvalho. A adoção de acabamentos de pisos “macios”, como o carpete, seria um dos modos mais simples, não dependesse da vontade dos clientes que podem preferir outros tipos de revestimento dentro de seus apartamentos. “Se não é possível garantir isso, podemos colocar uma base elástica sob um contrapiso para amortecer os impactos”, conta o arquiteto da Arch-Tec. “A técnica pode ser utilizada em qualquer piso, desde que o contrapiso tenha rigidez suficiente para não quebrar”, ressalta a professora Dinara.

Essas bases elásticas podem ser compostas por lã de vidro, lã de rocha, EPS, entre outros materiais resilientes. “O material mais usado é o polietileno expandido, que tem a vantagem de ser barato – custa cerca de R$ 3/m2 a R$ 5/m2”, diz o professor João Gualberto de Azevedo Baring, da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da Universidade de São Paulo. A aplicação do piso flutuante demanda atenção: o contrapiso não deve ter contato com a laje e nem mesmo com as paredes, caso contrário, a vibração pode ser transmitida pela estrutura do prédio até outros andares – perdendo boa parte do resultado esperado.

Dinara explica que é importante não existirem frestas na camada do material resiliente aplicado: o pequeno contato entre o contrapiso e a laje, que pode ocorrer por causa dessas fendas, já seria suficiente para anular o efeito da base elástica. “Em função do tipo de material adotado podem ser utilizadas diferentes técnicas como, por exemplo, o uso de cola para vedar frestas ou até o emprego de um filme plástico para impedir vazamentos”, diz. A região das emendas também requer atenção: “Nesses lugares deve-se colocar uma sobreposição de mantas presas com fita adesiva”, sugere o projetista Maurício Grassmann.

A manta de piso flutuante é estendida sobre a superfície da laje – que deve estar o mais limpa possível – e dobrada nas bordas, fazendo com que o material avance sobre a parte inferior das paredes, evitando assim que essas paredes e o contrapiso tenham qualquer ponto de contato. Sobre essa manta é colocado um contrapiso com tela, para evitar trincas. Após sua aplicação, as bordas da base elástica já podem ser cortadas com um estilete. “Para uma manta macia (tipo Joongbo) de 10 mm de espessura, o contrapiso adotado deve ter, no mínimo, 4 cm”, calcula Grassmann.

Dependendo da situação, pode ser necessário executar um contrapiso mais reforçado: “quanto mais elástico um material, menos ele transmitirá o som. Porém, é preciso cuidado para que o piso colocado em cima não deforme a base elástica”, explica Régio Carvalho. O professor Baring ainda lembra que o filete escuro, marca da manta em volta das paredes, já foi até utilizado como um diferencial estético em algumas construções. Para vedar esse contorno e evitar o acúmulo de sujeira, recomenda-se a aplicação de um rejunte flexível, como um cordão de silicone.

O rodapé também merece alguns cuidados nesse sistema: ele não pode encostar no contrapiso, pois, caso contrário, transmitirá as vibrações deste pelas paredes e estruturas do prédio para outros apartamentos. “O rodapé deve ter contato apenas com as paredes, mas um pequeno espaçamento entre ele e o piso já é suficiente”, diz Baring. Apesar de seus detalhes, os especialistas negam que a colocação de pisos flutuantes seja um procedimento difícil. “A instalação é simples para quem a conhece, mas o despreparado pode cometer erros”, conta o professor da FAU. Grassmann completa lembrando que algumas “economias” na qualidade do material e da mão de obra podem pôr um bom projeto a perder.

Por não terem contrapiso, as chamadas lajes nível zero podem ser bastante econômicas, mas também gerar grandes problemas de transmissão de ruídos. Para reduzir o incômodo, Carvalho sugere o aumento da espessura da laje, e o consequente aumento do volume de concreto utilizado.

Para Yoshimoto, do IPT, no entanto, esse tipo de laje, ainda que mais espessa, pode atender aos requisitos mínimos de conforto acústico apontados pela nova norma técnica, mas dificilmente chegará ao nível intermediário ou superior de desempenho. Com opinião semelhante, Baring é enfático: “A laje zero é um desastre do ponto de vista acústico e gera problemas mesmo nas habitações mais populares. A melhor solução é evitar seu uso, já que seu sentido é só a economia”.

Motores
A vibração de máquinas, como aparelhos de ar-condicionado, bombas ou motores de piscina de coberturas, também pode causar ruídos de impacto incômodos aos vizinhos. Além da atenção às marcas e modelos adotados, e da checagem dos testes de geração de ruídos que costumam ser realizados pelos fabricantes, a manutenção dos aparelhos deve ser garantida. “Também é importante que o apoio desses equipamentos esteja em uma superfície bastante rígida e pesada, mas isolado dela com um material macio, como sapatas de neoprene, EVA ou outros similares”, diz Grassmann. Segundo ele, todos os pontos de apoio da tubulação ligada a esses equipamentos também devem ter anéis de borracha para, assim, não ficarem presos diretamente a um suporte e a uma estrutura rígida. “Se a tubulação estiver dentro de uma parede, os canos podem ser revestidos com material resiliente. O revestimento não precisa ser feito em toda a extensão, mas principalmente nos primeiros metros, mais próximo ao aparelho gerador da vibração”, afirma.

Novas normas
A terceira parte da NBR 15.575, que entra em vigor em maio deste ano, estabelece os requisitos mínimos de desempenho para os sistemas de pisos de edifícios habitacionais de até cinco pavimentos. Entre outros itens, a norma define os índices de pressão sonora de impacto admitidos. “O mínimo estabelecido ainda está aquém do necessário e a ideia é que ele aumente com o tempo.

Estamos fora dos padrões internacionais, nosso nível superior equivale ao mínimo europeu, mas se a norma já tivesse começado muito rígida não seria seguida”, defende Yoshimoto. A norma também é importante por estabelecer parâmetros para a acústica de construções residenciais no Brasil, o que ainda não existia.

Para o cliente, além de poder decidir sua compra com mais informações, a norma traz elementos objetivos para a aferição legal, caso a justiça seja acionada por algum problema acústico. Nas construções realizadas antes da entrada em vigor dessas normas, o cliente não tinha como reclamar, em teoria. “As normas são o grande documento de defesa do usuário. Nesses casos, os parâmetros, que não existiam, podem servir de base para as reclamações”, explica Davi Akkerman, consultor da Harmonia Acústica.

“Elas têm força de lei e o consumidor deve ficar atento para utilizá-las”, ressalta ainda Yoshimoto.
Outra consequência da lei é estender a preocupação das construtoras com acústica, antes restrita aos prédios de alto padrão, aos demais empreendimentos. “As construções podem até ter algum aumento nos custos, mas esse valor deve ser inferior a 5% do valor total da obra”, diz Akkerman. Além disso, a adaptação às normas não deve ser um desafio às empresas. “O como fazer já existe, isso não deve trazer grandes dificuldades”, ressalta Carvalho.

Tecnisa agora com piso flutuante
Para evitar a transmissão de ruídos entre os apartamentos de seus empreendimentos, a construtora e incorporadora Tecnisa utiliza pisos flutuantes em suas lajes. Colocamos uma manta isolante de um material elástico para absorver os impactos, e uma “segunda laje” por cima dessa, explica o diretor técnico da empresa, Fábio Villas-Bôas.

O uso das duas camadas de laje, a estrutural e a que vai por cima da manta – que não é estrutural e consiste de uma camada de argamassa com fina tela de aço -, apresenta a desvantagem, porém, de reduzir o pé-direito das construções. À espessura da laje estrutural, que costuma ter entre 10 cm e 12 cm, podendo chegar a 16 cm numa sala, somam-se outros 5 cm, em média, de altura dessa laje adicional, sem contar a espessura do revestimento do piso. “Por isso, já projetamos nossos apartamentos com um pé-direito maior, ainda que tenhamos que diminuir alguns andares da obra por causa disso”, conta Villas-Bôas.

A Tecnisa conta, ainda, com consultoria especializada na área para analisar as soluções acústicas de suas construções. O diretor técnico da empresa calcula que o tratamento acústico custe cerca de R$ 35,00/m2. “O custo depende do valor do empreendimento. Em um prédio cujo metro quadrado vale cerca de R$ 1 mil, isso representa algo em torno de 3%”, calcula.
O procedimento de instalação da manta isolante requer cuidados importantes, como a atenção para que o piso não encoste nas paredes, laje ou mesmo rodapé – o que pode pôr abaixo todo o investimento do projeto.

Uma pedra que não tenha sido varrida da laje estrutural, por exemplo, pode servir de ponte de ligação entre o piso superior e essa laje, transmitindo as vibrações sonoras e inutilizando o efeito isolante da manta. “Se o cliente furar a manta com apenas um prego, 80% da eficácia do sistema terá se perdido”, ressalta Villas-Bôas. “Nos memoriais avisamos aos proprietários dos imóveis que solicitem o acompanhamento de um dos nossos técnicos na colocação e reforma de seus pisos e rodapés, para que a qualidade acústica da obra não seja perdida.”

Principais normas técnicas sobre acústica de prédios residenciais
NBR 10.151: 2003 – Avaliação do Ruído em Áreas Habitadas, Visando ao Conforto da Comunidade – Procedimento.
NBR 10.152: 1992 – Níveis de Ruído para Conforto Acústico – Procedimento
NBR 15.575: 2008 – Edifícios Habitacionais de até Cinco Pavimentos – Desempenho

Barulho tem solução?
Janela maxim-ar, com dispositivo de travamento sob pressão, é solução cada vez mais empregada nas obras para isolamento acústico “Depois de construído o prédio, é quase impossível diminuir a transmissão de ruídos de impacto”, comenta Mitsuo Yoshimoto, do IPT.

Para isso, o ideal é utilizar pisos considerados macios, como carpetes e laminados de madeira, em vez de cerâmicas ou mármore. O problema é que seria preciso trocar o piso do andar de cima – não o do vizinho que sofre com o barulho. Além dos custos e do incômodo de uma reforma, o proprietário do apartamento superior pode não querer outro estilo de piso em sua casa. “É necessário que essas questões sejam pensadas antes, depois não há solução efetiva”, destaca Yoshimoto.
Para não depender da iniciativa dos vizinhos, os forros falsos são apontados como uma alternativa, embora seus resultados sejam contestados.

Seu efeito isolante pode ser bastante limitado, como explica o consultor acústico Régio Carvalho. “A laje participa de um sistema estrutural complexo do prédio. Quando ela vibra com uma pisada, os tubos, os pilares e as paredes também vibram. O forro, porém, é colocado apenas no teto do apartamento, ou seja, seu efeito é restrito”, diz o arquiteto.
“Um forro rebaixado poderá até ampliar o som de impacto”, ressalta ainda o consultor Fernando H. Aidar.

Segundo ele, se os pendurais de sustentação forem rígidos, podem transmitir as vibrações para a superfície do forro, que passa a se comportar como um diafragma de alto-falante. Para evitar o fenômeno, recomenda-se que os pendurais sejam dotados de dispositivos elásticos com frequência natural entre 5 Hz e 10 Hz. “Entretanto, a solução não impede as transmissões de energia sonora pelas paredes e pilares”, completa Aidar.

Já a professora Dinara Paixão, da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), acredita que, apesar do desempenho limitado, um forro bem colocado pode ser uma solução para os apartamentos que sofrem com os ruídos e não foram tratados durante sua construção. “Ensaios laboratoriais já comprovaram que se pode obter uma redução de até 9 dB com o emprego de composições de forros duplos colocados sob laje padrão de 12 cm de concreto, quando essa for revestida com pisos de madeira sobre um material resiliente”, diz.

Paredes
Nos casos de transmissão de sons aéreos, reforçar as paredes com uma placa de gesso e lã no meio (como na estrutura das paredes drywall) é a opção adotada por alguns consultores. A lã no miolo funciona como uma mola, absorvendo parte do som e aumentando o isolamento acústico. “A solução pode ser usada em casos muito problemáticos. Também é possível rebaixar o teto com drywall, sempre com a lã mineral apoiada”, diz Maurício Grassmann, da Pro-acustic.

“Em casos extremos usamos duas placas de gesso acartonado na montagem das paredes e tetos com lã de rocha de densidade de 64 kg/m3”, explica. O projetista ainda destaca os cuidados que devem ser tomados com os buracos feitos para tomadas ou luminárias ao utilizar esse tipo de solução, que podem pôr a perder boa parte da eficiência da reforma.

O revestimento das paredes também pode influir na transmissão dos sons. Segundo Dinara, paredes de alvenaria com blocos cerâmicos, por exemplo, apresentam uma melhoria de 5 dB no Índice de Redução Sonora Ponderado pelo acréscimo de camadas de chapisco, emboço e reboco.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *